14 de mar de 2009

Tragédias e Comédias...


A vida é assim. E como pretenso contador de histórias, logo percebi que toda boa história tem muito desses dois lados da mesma moeda: a existência. Mas ela só é interessante quando acontece alguma coisa. Assisti à chamada de um documentário sobre o atentado em Madrid (lá se vão 5 anos) e percebi que as testemunhas, sempre engoliam em seco e conseguiam prender tua atenção. Isso se deve ao trauma, claro, mas quero que perceba, no final da chamada lembro vagamente algo como "eles têm história para contar". Ora, só porque estavam lá! No olho do furacão, na tragédia!

Leio gibis (histórias em quadrinhos, HQ, banda desenhada), desde que me conheço por gente. Interessante que notei alguns paralelos hoje, em que temos personagens de gibis nos cinemas hollywoodanos, com as séries importadas de televisão.

Nos gibis, principalmente os de super-heróis, era comum você chegar na última pagina e a história ficar no meio, sem fim, sem pé nem cabeça, com letras dizendo "CONTINUA DAQUI 15 DIAS" e as editoras publicavam a revista 40, 50 dias depois. Isso foi praxe durante toda minha infância, durante a década de 80 os leitores de gibis eram considerados a escória da humanidade. Esse ranço ainda permanece, mais aos poucos as máscaras vão caindo. O paralelo que me refiro é às séries televisivas, as americanas, como Sopranos, Prison Break, Lost, entre outras. No meio da história, PÁ! Tela preta, EXECUTIVE PRODUCER e até semana que vem, bobão. Assim que sinto quando um autor faz isso com um leitor. Quantas histórias da Marvel levei décadas para ler completas... Foi mais fácil reunir e assistir à todos os episódios do Dragon Ball que ler os gibis todos do Batman, Homem Aranha, Super Homem, etc...

No final, toda informação gira sempre em torno do mesmo eixo - o ser humano. E não importa o tipo de suporte, seja ele analógico ou digital, o que importa é a idéia que está contida no texto. Ou não, o infeliz foi tão massacrado na academia que não consegue fazer algo novo, apenas entende o que já foi feito e traça um novo panorama, apenas relacionando autores, nada acrescentando ao assunto. É triste, mas acontece. Numa sociedade monetarizada, nenhuma relação pode ser saudável. 

É raro, mas existem iniciativas contra a ignorância, "imperatriz" da realidade. Uma delas, tive o prazer de frequentar por um bom tempo, foi a Gibiteca Henfil, enquanto essa ainda era na Biblioteca Viriato Corrêa, na Vl Mariana. Atenção pessoal, vi no diHITT comentários de pessoas que nunca ouviram falar de bibliotecas... Das duas uma: ou não procuraram direito ou não cobraram o suficiente. É triste conhecer uma área tão importante e tão subestimada. Se as pessoas tivessem noção do que são Bibliotecas de verdade... Se as pessoas soubessem sobre o Manifesto da Unesco... Se... Se... Se o mundo fosse melhor...

Mas voltando à gibiteca, foi lá onde pude ler quase tudo o que foi possível sobre todos os autores que me interessavam. Como colecionador responsável, doei vários exemplares para a gibiteca, que me forneceu acesso a um material maravilhoso. Antes que eu esqueça, a gibiteca continua na ativa, mas hoje ela está lá no Centro Cultural Vergueiro, outro antro que frequentei durante a juventude. Como a vida são ciclos, os quadrinhos deram um tempo e minha vida mudou radicalmente, fui embora de São Paulo, morei um tempo em Londrina no Paraná... (Lá pude frequentar duas bibliotecas - a Biblioteca Central da UEL, onde fui aluno e a Biblioteca Pública Municipal, com um conteúdo mais escolar, mas muito interessante... É como já disse e repito, todo município brasileiro têm que ter biblioteca, se a lei não existe, demoramos para exigir. Um dos idealizadores da Petrobrás já dizia, "Um país se constrói com homens e livros")

Um dia, "tropecei" num livro muito interessante sobre quadrinhos. (já falei sobre ele aqui no blog - o link está no fim do artigo). Isso me deu uma idéia muito interessante... Se existe um ditado que funciona bem na internet é o "quem procura, acha". Tem de tudo. Do mais inumano ao mais clichê. Mas têm. E um dia descobri os "scans" de gibis.

Aquele dia, meu sol brilhou! Duas paixões, finalmente juntas! Sim, existe toda uma discussão quanto à ética de disponibilizar scans de gibis, por motivos de direito autoral, etc... Sobre isso, não sei por que as pessoas se preocupam tanto. Tudo o que realmente gosto, tenho o material, preferência original ou cópia feita por mim. Desde a época das fitas cassetes, só gravava de disco, nunca de rádio. Saudoso vinil. Saudoso K-7. To ficando velho... Quanto aos gibis, não tem sensação melhor do que tê-los em mãos, folheá-los, sentir-lhes o cheiro, a textura, notar as nuances de cores... Tudo isso se vaporiza na tela do computador. Como dizem em Portugal, o ecrã é o culpado. Ler no computador é uma experiência terrível. Pelo menos para mim, que gosto de sentir um livro entre as mãos... Esse ritual faz falta.

Lá se foi o prazer de manipular a mídia para poder ter acesso. Afinal, o que é mais importante? O acesso à informação ou a posse do suporte da informação? Vou até mais fundo, será que a questão antes de tudo isso não seria uma maneira universal de comunicação humana? Independente de idiomas... A comunicação não ocorre só atarvés do idioma. Um olhar comunica mais que mil e quinhentas palavras. A escrita é só um meio artificial de registrar uma idéia, codificada de acordo com o código que você aprendeu. Adoro Semiologia.

Bom, tudo isso para agradecer de coração ao Rapadura Açucarada, um dos primeiros blogs de scans que conheci, do grande Eudes... Atravé de lá, recuperei muita coisa boa. E agora vou apresentar ao meu público o que sempre me fez a cabeça. Histórias selecionadas à dedo, sinopses bem elaboradas e o arquivo para download. Você está pronto para o maravilhoso mundo da arte sequencial?